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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Princesa Isabel: a primeira mulher no poder


A Princesa Isabel aclamada pela multidão
na sacada do Paço Imperial após a assinatura da Lei Áurea,
13 de maio de 1888.

Por Flávio Henrique Lino
RIO - As duas são filhas de Pedros. Uma nasceu em 1846; a outra, em 1947. Uma tinha pai brasileiro e mãe estrangeira; a outra, mãe brasileira e pai estrangeiro. Uma veio ao mundo em berço nobre e virou plebeia pela força das armas; a outra nasceu plebeia e empunhou armas antes de virar "nobre". A primeira terminou sua carreira pública nos anos 1880; a segunda começou a sua nos anos 1980. Uma foi tirada do cargo pela República; a outra ganhou o seu por causa dela. Ambas herdaram o poder: uma do pai imperador, a outra do padrinho presidente. No entanto, embora entre semelhanças e coincidências inversas suas biografias se encontrem nos desvãos da História - onde domingo passado Dilma Vana Rousseff escreveu seu nome como a primeira mulher eleita presidente do país - coube a outra brasileira a primazia de ser a primeira representante do sexo nem-tão-frágil-assim a governar de fato o Brasil independente. Regente do Império em três ocasiões entre 1871 e 1888, durante viagens de Pedro II ao exterior, Isabel de Orleans e Bragança tornou-se chefe de Estado em exercício - esquentando o trono para o retorno do pai ausente.
(Conheça a trajetória da primeira mulher presidente do Brasil)
A rigor a rigor, o bastão de pioneira seria da avó da Princesa Isabel, Leopoldina, nomeada chefe do Conselho de Estado e regente interina pelo ainda príncipe D. Pedro quando este viajou a São Paulo em agosto de 1822, véspera da Independência. No fatídico 7 de setembro, data de nascimento do novo país, era Leopoldina quem respondia oficialmente pela direção do governo no Rio de Janeiro, enquanto D. Pedro ainda estava em terras paulistas. Mas, com o marido a poucos dias a cavalo da capital, pode-se dizer que a futura imperatriz apenas fazia o meio de campo enquanto o futuro imperador não retornava para dar as ordens. Já Isabel, com o pai ausente a um ou dois continentes de distância, ficou no cargo por 3 anos e 4 meses - quase um mandato presidencial.
Não que o tempo a mais e a distância do pai imperador tivessem feito grandes diferenças. Segundo historiadores, a princesa - embora contasse com poderes garantidos pela Constituição de 1824 - não tinha gosto pelo exercício do governo, e ateve-se a um papel mais tradicional para uma mulher do século XIX.
- Ela sempre se encarregou da regência a contragosto, mantendo-se fiel e dócil ao sistema e estilo de governo do seu pai - disse ao GLOBO, de Vancouver, no Canadá, o brasilianista Roderick Barman, historiador do Departamento de História da Universidade da Colúmbia Britânica e autor da biografia "Isabel, Princesa do Brasil". - Seu marido, o conde d'Eu, é quem escrevia as cartas aos ministros e tomava para si o estudo dos documentos apresentados pelo Gabinete.
Despertada pelo abolicionismo
Um estilo que muitos apostam que pode se repetir agora com Dilma no governo, com a sombra de Lula por trás dela. No entanto, diferentemente da presidente eleita, que já deu mostras de sobra de sua vontade de tomar nas mãos as rédeas das decisões e teve papel de virtual primeira-ministra no governo Lula, a princesa teria sempre mostrado apatia em relação ao poder nas duas primeiras regências, em 1871 e 1876. Apenas na terceira, em 1888, com o país inflamado pelo abolicionismo, da qual era uma fervorosa defensora, Isabel teria resolvido exercer de fato suas prerrogativas de regente. E aí fez História com H maiúsculo.
Decidida a apressar a libertação dos escravos, mas encontrando resistência obstinada por parte do chefe do Gabinete, o barão de Cotegipe, a regente finalmente meteu o pé na porta. A gota d'água foi a violenta repressão policial a uma passeata abolicionista no Rio de Janeiro em março de 1888. "Há tempos minhas ideias divergiam das do Ministério", explicou em carta ao pai, na Europa, relatando como forçou a demissão do Gabinete. "Não me arrependo do que fiz (...) e em consciência não devia continuar com um Ministério, quando eu por mim mesma sentia e estava convencida de que ele não preenchia as aspirações do país nas circunstâncias atuais". A regente, então, escolheu pessoalmente o novo chefe do Gabinete, João Alfredo, dando-lhe carta branca para agir, e deixando claro que não aceitaria mais protelações.
Uma defensora do voto feminino
No dia 13 de maio de 1888, colocou o trono na linha de tiro ao assinar a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no país, mas tirou da monarquia seu último sustentáculo: a aristocracia cafeeira do Vale do Paraíba. Instada pelo marido a não assinar a lei aprovada pelo Parlamento, por seu potencial de perigo à Coroa, Isabel não titubeou: "É agora ou nunca!". E ao barão de Cotegipe, que ao cumprimentá-la pelo ato, disse que a regente "libertou uma raça, mas perdeu o trono", a princesa também foi categórica: "Mil tronos tivesse, mil tronos daria para libertar os escravos do Brasil".
- O movimento abolicionista despertou nela um gosto pelos assuntos públicos - ressalta Barman. - A abolição teria acontecido mais dia menos dia, mas a ação da regente foi indispensável para o desfecho rápido e pacífico da crise.
A abolição renovou o prestígio da monarquia, e a nova Isabel, moldada na luta abolicionista, gostou do resultado que suas ações poderiam trazer ao país. Numa carta ao visconde de Santa Victoria em agosto de 1889, três meses antes do golpe de Estado da Proclamação da República, deixou claras suas intenções para o momento - que nunca chegaria - em que se tornaria imperatriz. Já removida da regência pelo retorno de D. Pedro II em agosto de 1888, a princesa deu seu apoio à indenização dos ex-escravos para que pudessem se estabelecer como agricultores, e também à revolucionária ideia do sufrágio feminino - que nenhum país da época instituíra. "Quero agora dedicar-me a libertar as mulheres do cativeiro doméstico. Se a mulher pode reinar, também pode votar".
- Ainda há um desconhecimento muito grande sobre quem foi a Princesa Isabel - aponta Bruno de Cerqueira, do Instituto D. Isabel I a Redentora. - É um grande erro falar somente de sua atuação pela Lei Áurea, quando ela foi uma personagem muito mais rica.
A Lei Áurea

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Documento: Café Ning

sábado, 28 de agosto de 2010

No Jornal: Protótipo da Bandeira Nacional é roubado no Rio


O telhado da igreja danificado pela chuva: demora no tombamento de prédio do Iphan dificulta reforma. Foto de Domingos Peixoto / Agência O Globo


Igreja Positivista, onde estava a obra furtada, sofre com abandono desde que um temporal destruiu seu telhado, em março


Jacqueline Costa e Vivian Oswald

RIO e BRASÍLIA. O abandono da Igreja Positivista do Brasil foi provavelmente um dos motivos para o sumiço do seu maior tesouro: o protótipo da Bandeira Nacional, desenhado por Décio Vilares, em 1889. A relíquia foi levada da sede da igreja, também conhecida como Templo da Humanidade, na Rua Benjamim Constant 74, na Glória, como informouAncelmo Gois em sua coluna no GLOBO. Na 9ª DP (Catete), onde o caso foi registrado em 4 de maio, o presidente da igreja, Danton Voltaire Pereira de Souza, contou que o crime aconteceu na madrugada do dia 27 de abril. Desde que seu telhado despencou numa sexta-feira 13, em março de 2009, após um forte temporal, o edifício, inspirado no Panteão de Paris, está de portas fechadas.

Plásticos para proteger da chuva 16 mil livros

Danton diz temer pela estrutura do prédio e pela biblioteca com 16 mil livros, que estão cobertos com plásticos, assim como a mobília. A umidade e os cupins, que ele denuncia desde 2005, e são uma ameaça adicional ao que sobrou das paredes e do acervo. Na terça-feira, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, solicitou à Fundação Biblioteca Nacional (BN) que estudasse uma forma de ajudar na conservação do prédio da igreja.

— Nós já entramos em contato com a Igreja Positivista do Brasil, oferecendo uma visita técnica de especialistas em restauração da Biblioteca Nacional, para verificarmos o estado do acervo da instituição e indicarmos ações para sua salvaguarda — disse ao GLOBO a diretora do Centro de Processos Técnicos da BN, Liana Amadeo.

Segundo ela, a instituição pode, após a vistoria, fazer um laudo que reforce as necessidades do prédio e ajudar a igreja a transferir todo o acervo do local (e auxiliar com a higienização das obras) para poder dar início a uma reforma. O problema é que a fundação só poderá ajudar com o acervo, e ainda não há um projeto de reforma em andamento. Danton Voltaire afirma que o custo das obras deve ser de cerca de R$2 milhões e que teria enviado ao Ministério da Cultura uma proposta de projeto há alguns meses.

Na próxima quinta-feira, Danton Voltaire será recebido pelo representante do ministro da Cultura no Rio para uma reunião. O prédio é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac) desde 1978. Em2008, a Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encaminhou para Brasília o pedido de tombamento da construção. Se o processo já estivesse sido votado pelo Conselho Consultivo, o órgão federal poderia arcar com obras emergenciais que tirariam o imóvel da situação de risco em que se encontra.

No registro de ocorrência, consta ainda que a porta da sala de relíquias foi arrombada e que, além da bandeira, foram levadas cinco fotografias da Capela da Humanidade de Paris, que estariam penduradas nas paredes. Um amplificador de som com microfone sem fio também foi furtado. O delegado da 9ª DP, Alan Luxardo, disse que as investigações estão prosseguindo e que testemunhas estão sendo chamadas a depor.

Na doutrina positivista, não há um culto a um deus onipotente: a adoração é à humanidade. Por isso, nas laterais da nave, no lugar de imagens de santos, há bustos de filósofos, cientistas e artistas apontados como grandes nomes da História.

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Imagem/ matéria: O Globo

O AMOR POR PRINCÍPIO, E A ORDEM POR BASE; O PROGRESSO POR FIM./ Literatura & Rio de Janeiro

Disque-Denúncia: R$ 2 mil por informações de protótipo da Bandeira Nacional/JB Online  




Imagens: JB Online 
Literatura & Rio de Janeiro

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Fantasma da Itália: Culto à imagem de Mussolini assombra democracia no país


Renato Grandelle
Benito Mussolini foi assassinado há quase 65 anos, mas seu fantasma ainda ronda a Itália. Imagens e frases do ditador fascista são tema de provas, discursos e pôsteres. O fenômeno não é novo, mas ganhou fôlego este ano e nas últimas semanas se tornou evidente. O “Duce”, como era conhecido, foi citado por Silvio Berlusconi — justamente em uma ocasião em que o premier quis negar a fama de poderoso — e ganhou outra menção polêmica no vestibular nacional, duas semanas atrás. Em uma questão da prova de italiano, os alunos eram instruídos a analisar uma frase em que ele tecia elogios à juventude.


Imagens de Mussolini não são raras no centro histórico romano. Dezenas de bancas dedicadas à venda de souvenires, como cartões postais e miniaturas do Coliseu, incluíram em seu catálogo pôsteres de Mussolini. E um aplicativo de
iPhone com os discursos do ditador está entre os mais baixados.
Mussolini ao lado de Hitler

O fantasma fascista assusta, mas não surpreende os historiadores. Trata-se de uma nova guinada no volúvel relacionamento da Itália com seu antigo líder. Já no fim da Segunda Guerra, Mussolini 
foi tirado do poder e fuzilado por guerrilheiros da Resistência. A imagem de um país que bateu de frente com o ditador permeou as décadas seguintes, mas enfraqueceu nos anos 70, quando novas pesquisas mostraram uma sociedade que, em boa parte, respaldou os crimes do ditador.

As décadas seguintes trouxeram a globalização e, com ela, um Estado nacional cada vez mais frágil. 
A chegada de imigrantes do norte da África e do leste da Europa expuseram a crise de identidade do país. Saudosistas e intolerantes refugiam-se na busca de um tempo mais altivo e guerreiro. Não raro, recorrem à imagem de Mussolini.

— Boa parte dos movimentos autoritários nutre-se da imagem de um Estado nacional perturbado com a circulação das populações — ressalta Maurício Parada, professor de História Contemporânea da 
PUC-Rio e organizador do livro “Fascismos: conceitos e experiências”. — As fraturas do cenário político italiano e a crise da identidade cultural explicam por que imagens de Mussolini podem ser compradas no meio da rua.

Por enquanto, a fala grossa da extrema direita não provoca mais do que espasmos. Parada acredita que a democracia italiana é sólida demais para rachar diante de invocações ao 
Duce. A socióloga italiana Simonetta Falasca-Zamponi, autora de “Espetáculo fascista: a estética do poder na Itália de Mussolini”, concorda com o colega brasileiro.

— O 
revisionismo sobre Mussolini acontece já há alguns anos. Faz parte da guinada à direita da política e cultura italianas, uma reação contra a Resistência e seus mitos — analisa. — Sobre o futuro, é difícil prever, mas me parece que as condições históricas atualmente são diferentes demais daquelas vistas logo após a Primeira Guerra Mundial para que um fenômeno como o fascismo possa se repetir.

Ainda assim, a polêmica presença do ditador ganhou força com dois golpes seguidos. O primeiro veio ainda em maio, quando um repórter perguntou a Berlusconi se os governos nacionais não perderam parte de sua soberania, visto que suas decisões para conter a crise econômica não foram acatadas pelo mercado.

O primeiro-ministro lembrou-se imediatamente de uma frase do diário de Mussolini — obra de que é entusiasta. “Eu não tenho nenhum poder”, disseram ambos. O fascista ainda completou: “Talvez tenham os líderes, mas eu não. Posso decidir se o cavalo vai para a direita ou 
a esquerda, mas nada mais”.

— Berlusconi me parece ser um emérito ignorante em termos históricos, e não creio que entenda o que de fato foi o fascismo — condena 
Simonetta. — Ele é claramente atraído pela perspectiva de um poder que não possa ser questionado.

— Mussolini, com esta frase, diz que o poder não está concentrado em sua figura, mas que ele é o meio para o poder se realizar — alerta Parada. — Esta é a síntese de um projeto autoritário, porque todas as 
outras alternativas de organização, como partidos e sindicatos, são eliminadas. Quando Berlusconi a lembra, manifesta um desejo de autoridade.

Duas semanas atrás, Mussolini emplacou outra pérola, desta vez na prova de italiano do vestibular nacional. Um dos exercícios exigia a análise de quatro frases, todas sobre o papel dos jovens na História e na política. Assinavam as citações, além do ditador, o comunista 
Palmiro Togliatti, o democrata cristão Aldo Moro e o Papa João Paulo II.

Comparar ideólogos tão diferentes, para historiadores ouvidos pela imprensa italiana, não é problema. O que provocou o debate foi 
a frase escolhida para representar o Duce. A citação, retirada do contexto original, pertencia a um discurso em que Mussolini versava sobre o assassinato do deputado socialista Giacomo Matteottisequestrado e morto em 1924, três semanas após denunciar o Estado policial na tribuna do Parlamento.

— Aqueles que não conseguem associar (a frase) ao contexto histórico de opressão podem reter-se na retórica com que Mussolini usou o conceito de juventude — alertou o historiador Claudio 
Pavone, em reportagem do jornal “LaRepubblica”. — Colocar aquela frase e outras citações sob um título genérico me parece um modo perigoso de despolitizar o fascismo.

E o risco de que o aluno não associe o discurso à ocasião é grande, segundo 
Simonetta:

— Infelizmente a juventude não sabe muito sobre o fascismo, assim como eu não sabia quando era jovem. Esta sempre foi uma grande falha do ensino italiano. Dependemos da qualidade do sistema escolar para saber quantos reagiriam à retomada de um sistema político semelhante ao de Mussolini.


Jornal: O GLOBO
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No jornal: Escolha dos vices não leva em conta a História


Autor(es): Agencia o Globo/Gustavo Alves
O Globo - 01/07/2010
Nomes são indicados sem a lembrança de que, de Deodoro a Collor, oito presidentes tiveram de ser substituídos 

GETÚLIO VARGAS: ele se matou com um tiro




JÂNIO QUADROS: acabou renunciando



COSTA E SILVA: morreu no exercício do cargo


JOÃO GOULART: foi derrubado pelo regime
TANCREDO: morto, assumiu Sarney 



FERNANDO COLLOR: sofreu impeachment


A frase do humorista Ivan Lessa de que de 15 em 15 anos o Brasil esquece o que houve nos últimos 15 anos nunca parece tão acertada quando se pensa nos vices escolhidos pelos candidatos à Presidência este ano. Os nomes indicados por dois dos principais candidatos serviram para garantir alianças e mais tempo de TV, no caso de Indio da Costa e do peemedebista Michel Temer. Ou para se aproximar de empresários, como no caso de Guilherme Leal, presidente da Natura. Mas, entre os critérios que os levaram a ser escolhidos, não parece ter sido levada em conta a hipótese de que eles possam, um dia, assumir a Presidência . 

- É uma possibilidade que se tornou bastante frequente na História do Brasil - alerta a historiadora Isabel Lustosa, autora de "História de Presidentes da República", antes de enumerar os casos das sete vezes em que o vice assumiu, sem contar um em que ele foi impedido, durante o regime militar de 1964. 

Delfim Moreira assumiu 
com problemas mentais 

O primeiro deles foi o primeiro vice - Floriano Peixoto substituiu Deodoro da Fonseca, que renunciou depois de proclamar a República. Em 1909, foi a vez do campista Nilo Peçanha assumir no lugar de Afonso Pena, que morreu durante seu mandato, logo depois do filho, Álvaro. 

Caso mais grave foi o de Delfim Moreira: ele entrou no lugar de Rodrigues Alves antes mesmo de o político paulista assumir seu segundo mandato - ele morreu na epidemia de gripe espanhola que devastou o planeta durante a I Guerra Mundial. Assumiu, mas não governou, por causa de seus problemas mentais - a administração do Brasil em 1919, na prática, ficou a cargo de Afrânio de Melo Franco, ministro de Obras e Viação, no período chamado por historiadores de "regência republicana". 

Os vices não foram chamados a sair da sombra no restante da República Velha - que terminou quando foi assassinado o candidato a vice de Getúlio Vargas, João Pessoa, governador da Paraíba, crime que deflagrou a revolução de 1930. Foi o início do predomínio de Getúlio na política brasileira, que só terminaria em 1954, quando ele se matou - e assumiu o seu vice, Café Filho. Café foi escolhido vice de Getúlio também por um arranjo entre partidos: foi uma condição imposta por Adhemar de Barros para apoiar a volta do caudilho gaúcho à Presidência. 

O próximo vice a assumir foi João Goulart, que entrou no cargo com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Ele não havia sido eleito na mesma chapa de Jânio: a legislação eleitoral previa votações separadas para presidente e vice. Herdeiro de Getúlio, Jango era malvisto pelos conservadores e militares e, para tomar posse, teve de aceitar a mudança do regime de governo - o Brasil foi parlamentarista de 1962 a 1963. 

No ano seguinte, Jango foi deposto pelo golpe militar, e foi no regime de exceção que Pedro Aleixo entrou para a História como o vice que não entrou para a Presidência: com o afastamento de Costa e Silva por uma trombose em 1969, foi impedido de assumir pela junta militar que governou o Brasil até a posse do próximo general-presidente, Emílio Garrastazu Médici. 

O fim da ditadura foi outro episódio que demonstra a importância dos vices-presidentes: eleito, Tancredo Neves adoeceu, e José Sarney assumiu em seu lugar. O próximo presidente também não terminaria o mandato: Fernando Collor de Mello sofreu um processo de impeachment e foi substituído pelo vice, Itamar Franco. 

"Tempo de TV virou uma espécie de ditadura" 

Diante desta sequência de casos traumáticos em que os vices se tornaram os governantes, ainda assim José Serra (PSDB) terá como companheiro de chapa alguém que já foi chamado de despreparado para ser prefeito do Rio pelo seu próprio padrinho político, Cesar Maia. Dilma Rousseff (PT) escolheu um nome do PMDB, partido identificado com o fisiologismo e a corrupção. E Marina Silva (PV) optou por um empresário sem experiência política. 

Para Isabel Lustosa, no caso de Guilherme Leal, foi a necessidade de Marina de se aproximar do setor produtivo. No caso de Indio da Costa e Michel Temer, pesou o tempo de televisão que os candidatos a presidente queriam de seus partidos aliados, o DEM e o PMDB: 

- O tempo de TV virou uma espécie de ditadura - critica a historiadora.