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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Exercícios II - Aula - Projeto Vestibular com Gabarito


Colaboradores: Gabriel Luíz, Rafael Aguiar e Carla Sobrino

1) UERJ - 2000
(...)Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. (...) Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente de frutos, que a terra e as árvores de si lançam (...).
(CORTESÃO, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1943.)

No Brasil, durante o período colonial, as mudanças transcorridas na organização política, econômica e social dos indígenas estão relacionadas com:

(A) o rompimento de sua unidade política, levando ao fracionamento das federações tribais
(B) a expropriação das terras, provocando a interiorização de muitas comunidades nativas
(C) a imposição gradativa do trabalho sedentário, levando a sua utilização como mão-de-obra assalariada
(D) o seu largo emprego em trabalhos compulsórios na pecuária e na mineração, provocando a sedentarização das comunidades do litoral

2) UNIRIO - 2005

O processo de expansão marítima que envolveu diversos países europeus, ao final da idade média, se  encontra nas origens do mundo moderno. Ampliou horizontes geográficos e do saber europeu, elevando a Europa a uma posição central de poder, identificada com a própria modernidade. Sobre a expansão marítima européia, entre os séculos XIV e XVI, é correto afirmar que:

a) favoreceu o monopólio dos holandeses nas rotas de especiarias das Índias orientais, devido ao controle que exerciam sobre os conhecimentos náuticos e cartográficos.
b) atraiu os navegadores às rotas do mediterrâneo oriental em virtude do rico comércio com o oriente praticado nesta região pelos mercadores italianos.
c) solucionou os problemas gerados pela explosão demográfica ocorrida na Europa ao final da idade média, principalmente, na França.
d) permitiu a Espanha ampliar a reconquista com a incorporação dos territórios árabes do norte da África.
e) possibilitou aos portugueses o controle do Atlântico Sul, a partir da viagem de contorno da África e da descoberta do Brasil


3) UFRRJ – 1999

“Coloquemo-nos naquela Europa anterior ao século XVI, isolada dos trópicos, só indireta
e longinquamente acessíveis e imaginemo-la, como de fato estava, privada quase inteiramente de produtos que se hoje, pela sua banalidade, parecem secundários, eram então prezados como requintes de luxo. Tome-se o caso do açúcar, que embora se cultivasse em pequena escala na Sicília, era artigo de grande raridade e muita procura; até nos enxovais de rainhas ele chegou a figurar como dote precioso e altamente prezado.”
PRADO Jr., Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo, Brasiliense,1961.

A colonização do Brasil, a partir do século XVI, permitiu à Coroa Portuguesa usufruir das vantagens trazidas pela s riquezas tropicais. Caracterizam a economia colonial brasileira:

(A) o monopólio comercial, a monocultura de exportação, o trabalho escravo e o predomínio das grandes propriedades rurais.
(B) o livre comércio, a indústria do vestuário, o trabalho livre e o predomínio das pequenas propriedades rurais.
(C) o liberalismo econômico, o trabalho assalariado, a monocultura canavieira e o predomínio
das grandes propriedades rurais.
(D) o exclusivo colonial, o trabalho escravo, a exportação de ferro e aço e o predomínio das pequenas propriedades rurais.
(E) o monopólio comercial, o trabalho assalariado, a produção para o mercado interno e o predomínio das grandes propriedades rurais


3) UFRRJ – 1999

 Os portugueses foram os primeiros europeus a lançarem-se no processo de expansão marítima, no século XV. Isto ocorreu devido a inúmeros fatores de ordem interna, tais como: a precoce centralização política a uma burguesia forte e uma certa experiência em navegação. Em relação a outros fatores que favoreceram a expansão marítima portuguesa, podemos citar:

(A) a necessidade de descobrir novas jazidas de metais preciosos para cunhagem de moedas e o desejo de chegar às Índias para monopolizar o comércio de especiarias.
(B) a necessidade de descobrir novas jazidas de metais preciosos para cunhagem de moedas e a feitura de uma aliança com a Espanha, visando uma ação conjunta em relação ao descobrimento da América.
(C) a necessidade de descobrir novas jazidas de metais preciosos para a cunhagem de moedas e o desejo de fundar novas cidades na costa africana, levando-lhes o desenvolvimento técnico dos europeus.
(D) a necessidade de expandir a fé católica, bem como a necessidade de se chegar às Índias viajando para o Ocidente, a fim de divulgar os novos preceitos do Calvinismo.
(E) a necessidade de descobrir novas jazidas de metais preciosos para cunhagem de moedas e o objetivo de chegar às Índias para desenvolver a cultura de ambos países.




GABARITO: 1- B, 2- E, 3 - A



DISCURSIVAS:


UERJ- 2004
ABAIXO O IMPOSTO!



 (In: TUDESQ & RUDEL. 1789-1848. Paris: Bordas, 1968.)
A caricatura critica o peso dos tributos senhoriais, dos dízimos e das taxas que recaíam sobre o erceiro Estado, no Absolutismo francês. Esses tributos transformaram-se em um dos motivos da  contestação que levou à crise do Antigo Regime e à deflagração da Revolução Francesa.

A) Identifique duas características do Absolutismo.
B) Conceitue os Estados Gerais, convocados em 1788 por Luís XVI para discutir a crise
financeira da França, e explique em que medida sua reunião contribuiu para o início
da Revolução Francesa.

GABARITO:
01.
A) Duas dentre as características:
-concentração dos poderes executivo, legislativo, judiciário e militar nas mãos do
soberano
- legitimação do exercício absoluto do poder pelo soberano, através da
invocação da teoria do direito divino
- venda de cargos como meio de recolher rendimentos da burguesia e da
nobreza
-abuso de privilégios por parte da nobreza
- cobrança de tributos régios
- mercantilismo

B) Assembléia constituída pelos representantes da sociedade – Clero, Nobreza e Terceiro Estado – que tinha a função de ajudar o soberano a resolver os principais problemas da França.Reunidos em Versalhes, em maio de 1789, os representantes dos três Estados se depararam com a questão de como se procederia às votações: manter o voto por Estado ou adotar o voto por cabeça, pleito do Terceiro Estado. O não posicionamento do monarca em relação a esta questão levou os deputados do Terceiro Estado a se declararem, em Assembléia Nacional, marco de grande significância para a experiência revolucionária francesa.

UFRRJ – 1999


Trinta e dois anos haviam decorrido depois da descoberta do Brasil, quando o Rei de Portugal. João II, filho de D.Manoel, teve notícia dos progressos que faziam os castelhanos estabelecidos nas  margens do Paraguai e do desenvolvimento que davam os franceses ao seu comércio nos mares do sul. Resolveu, então, dividir o seu enorme território da América em lotes de 50 léguas, distribuindo-os aos servidores mais notáveis do reino, que tivessem por seus recursos ou crédito, condições de promover eficazmente a povoação e defesa da parte que lhes fosse confiada.
Depois de melhor informado por Martin Afonso de Souza que, com seu irmão Pero Lopes, acabava de explorar a imensa costa, mandou El’Rei demarcar 15 lotes distintos, dos quais fez mercê a 12 donatários. Conferiu-lhes, então, Cartas de Doação em que lhes eram concedidas consideráveis regalias e poder de governadores. Tal poder compreendia, também, o direito de escravizar os gentios, podendo até mesmo enviá-los para Lisboa a fim de que fossem vendidos.

a) Explique uma razão da adoção do Sistema de Capitanias Hereditárias no Brasil.

b) Cite dois motivos da falência desse sistema administrativo no Brasil.


GABARITO:

 a) Dentre outras razões, o candidato poderá explicar:
- Que a Coroa Portuguesa desejava povoar e colonizar o Brasil sem dispor de grandes investimentos de capital e, para tal, a colonização ficou a cargo de particulares.
- Que Portugal já possuía experiência com o Sistema de Capitanias Hereditárias.
b) Dentre os motivos da falência do Sistema de Capitanias Hereditárias o candidato poderá citar:
- A falta de investimentos financeiros por parte da Coroa na Colônia.
- Os constantes ataques indígenas aos povoados.
- A dificuldade de povoação devido à grande extensão territorial das Capitanias


UNIRIO – 2005

“O rápido desenvolvimento da indústria açucareira, malgrado as enormes dificuldades decorrentes do meio físico, da hostilidade do silvícola e do custo dos transportes, indica claramente que o esforço do governo português se concentrara nesse setor.”
(FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1977, p. 41.)

A coroa portuguesa viabilizou a ocupação e o povoamento de seus territórios coloniais na América, entre os séculos XVI e XVII, com a implantação da cana-de-açúcar. Os engenhos rapidamente se espalharam pela costa brasileira, principalmente, a partir de Pernambuco e da Bahia, tornando o açúcar a principal riqueza da economia colonial nesse período.
Cite e explique uma característica econômica da produção açucareira no Brasil colonial no período demarcado acima.

GABARITO:
Monocultura de exportação inserida no pacto colonial conforme as políticas e práticas  mercantilistas (plantation); monocultura voltada para o atendimento do mercado externo em regime de privilégios e monopólios; modelo agro exportador; pacto colonial; cultura explorada em que incluíam florestas fornecedoras de madeira, moendas, casa-grande, senzalas, etc.; uso de mão-de-obra escrava como base do sistema econômico da produção açucareira destacadamente de origem africana (tráfico negreiro); controle holandês das etapas de refinação e comercialização do açúcar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Exercícios - Aula - Projeto Vestibular com Gabarito

Colaboradores: Gabriel Luíz, Rafael Aguiar e Carla Sobrino.


1 – A principal característica do Absolutismo foi a concentração de todo o poder e autoridade na pessoa do rei e a completa identificação entre este e o Estado. Diversos pensadores escreveram tratados famosos justificando o Absolutismo. Assinale a opção que não está relacionada com a ideologia absolutista:

a)      “O rei deve ter o poder supremo sobre os cidadãos e súditos, sem restrições determinadas pelas leis.”
b)      “No estado de natureza, imperava originalmente a guerra de “todos contra todos”. Para pôr fim a essa situação de violência e anarquia, os homens devem firmar um pacto – o contrato social – renunciando à liberdade em troca da segurança oferecida pelo Estado.”
c)      “A ordem interna da sociedade só poderá ser preservada pelo Estado, através da autoridade ilimitada do soberano.”
d)      “A sociedade e o Estado nascem segundo convênio entre as diversas pessoas, em benefício de seus interesses comuns.”

2 – Governar em nome de Deus e somente a Ele prestar conta de seus atos foi a teoria que justificou na Europa:
a) O reconhecimento do poder temporal dos Papas
b) A Questão das Indulgências
c) A prática de que “o Rei reina e não governa”
d) A separação da Igreja do Estado, conforme os princípios do Liberalismo
e) A concentração do poder temporal na pessoa do Rei

(UECE – 2004)
“O absolutismo francês consumou a sua apoteose institucional nas últimas décadas do século XVII. A estrutura do Estado e a correspondente cultura dominante, aperfeiçoadas no reinado do Luís XIV viriam a tornar-se o modelo para o restante da nobreza européia...”

Fonte: ANDRESON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 101.

Tomando por base o comentário apresentado, é correto afirmar que:

A)    A construção de uma máquina administrativa racionalizada garantia o controle e a intervenção estatal nas atividades políticas e econômicas
B)     A implantação do sistema mercantilista favorecia a expansão da iniciativa privada nas atividades básicas
C)    A supressão da carga tributária estimulou o desenvolvimento comercial em diferentes regiões do país
D)    A diminuição do volume do exército permitiu a acumulação de capital, indispensável à consolidação do Estado centralizado.

GABARITO: 1 – D; 2 – E; 3 – A.
(UERJ - 2000)            Navegar é preciso, viver não é preciso.

Este era o lema dos antigos navegadores, pois embarcar nos navios da rota das Índias ou do Brasil, entre os séculos XV e XVI, era realmente uma aventura.
Uma das explicações para o pioneirismo português nessa aventura marítima é:

(A)   o espírito de Cruzada, resultante da presença de uma burguesia mercantil à procura de terras;
(B)   o processo de reconquista do território português, em decorrência da Guerra dos Cem Anos contra a França;
(C)   a constituição da primeira monarquia absolutista dos tempos modernos, em virtude da aliança entre a nobreza e a coroa portuguesas;
(D)   a integração do país ao circuito do grande comércio europeu, com a criação de novas rotas entre as cidades italianas e o norte da Europa.

GABARITO: D

(UNIRIO - 2004) “O século XVI vê surgir o Estado moderno. A centralização monárquica vai, a partir do século XV, tomando o lugar dos pequenos núcleos feudais ... Foi necessário vencesse o monarca seus vassalos para que essa unidade mecânica se transformasse em unidade política e econômica. E então surgiu a idéia de economia nacional no sentido moderno dessa expressão, isto é, a concepção de Estado que coordena todas as diferentes forças ativas da nação – materiais e humanas. O comércio, principalmente, transforma-se em negócio público; seus interesses perdem o caráter de coisa exclusivamente privada; Em suma, a nação doravante é um organismo econômico ... A vida econômica, sob a influência dessa transformação política, amplia-se e se organiza, pois, no quadro nacional.”

(Hugon, Paul. História das Doutrinas Econômicas. SP: Atlas, 1989, ps. 62 e 63.)

Entre os séculos XV e XVIII a ação econômica dos Estados Nacionais Absolutos europeus manifestou-se através de um conjunto de idéias e práticas, conhecidas como Mercantilismo. No contexto histórico da transição entre o feudalismo e o capitalismo, constituiu-se como um sistema econômico que promoveu a expansão colonial do mundo europeu sobre os demais continentes.

Identifique e explique uma das práticas econômicas que caracterizaram a ação mercantilista entre os séculos
XV e XVIII.
GABARITO:
Em sua resposta o candidato deverá identificar e explicar, dentre outras, ações
econômicas que caracterizaram o Mercantilismo, tais como: metalismo; balança
comercial favorável à metrópole; protecionismo econômico; estímulo à produção
manufatureira; fiscalismo; intervencionismo e controle do Estado nas atividades
produtivas e extrativas; colonialismo e monopólios.

(UERJ – 2007)
                                          

A ilustração acima está estampada na folha de rosto da obra Leviatã, de Hobbes, publicada em 1651, na Inglaterra. A figura do Leviatã é proveniente de mitologias antigas, sendo empregada para personificar o Estado Absolutista europeu.

Descreva a conjuntura política da Inglaterra em meados do século XVII e aponte duas
características da teoria de Estado formulada por Hobbes.

GABARITO:
A Inglaterra foi marcada, em meados do século XVII, por uma série de conflitos que opuseram o rei – que defendia um absolutismo de feições continentais – a setores do Parlamento – que visavam a limitar os poderes reais e afirmar a supremacia parlamentar em alguns âmbitos como o fiscal. Esses conflitos foram denominados de Revoluções Inglesas.
Duas dentre as características:
·    idéia do pacto social
·    o direito de legislar do soberano
·    fundamentação racional da política
·    a renúncia de direitos do indivíduo para o soberano

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Atualidades: Hugo Chávez e Simón Bolívar (1783-1830)



O presidente Hugo Chávez e um quadro com a imagem de Simón Bolívar ao fundo : apropriações e distorções


Distorções bolivarianas
Historiadores discutem transformação da figura de Bolívar por Hugo Chávez
 
Mariana Timóteo da Costa - Correspondente • CARACAS

O Globo, 17 de abril de 2010

O longo e violento processo de independência da América espanhola começou ainda em fins do século XVIII e só terminou em 1824. Entre os seus muitos personagens, coube a Simón Bolívar (1783-1830) o título de Libertador. É dele o posto de personagem histórico mais complexo e de maior influência no imaginário político continental, devido tanto à sua produção intelectual — era um homem muito culto e viajado, que deixou vasta obra escrita — quanto ao seu heroísmo militar.

Nascido na aristocracia caraquenha, Bolívar liderou movimentos e guerras pela independência que influenciaram diretamente cinco países: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Se muitos políticos e líderes da região ao longo de quase dois séculos se apropriaram da figura do Libertador, nenhum usou-a e adaptou-a tanto como o atual presidente Hugo Chávez.

Neste 19 de abril de 2010 — quando é comemorado o bicentenário da rebelião que iniciou o processo de independência da Venezuela — torna-se inevitável analisar o que os historiadores chamam de mito, utopia ou até mesmo alegoria bolivarianos. É importante ressaltar que a Venezuela foi pioneira no movimento pela independência, já que, em 19 de abril de 1810, um grupo formado pela sociedade civil, com o apoio de militares como Bolívar, se recusou a reconhecer o governo espanhol. A Venezuela também foi o país que mais sofreu com as guerras que vieram depois: até 1824, 44% de sua população haviam sido mortos.

Chávez subverte frases do líder

O fato de Bolívar ser venezuelano e a luta ter começado aqui, faz do Libertador um mito ainda muito presente no imaginário popular.

E o discurso de Chávez em relação a ele fez o personagem crescer não só na Venezuela como em países cuja política ela influencia, como Equador, Cuba e Nicarágua. Os líderes desses países, aliás, são esperados em Caracas no próximo dia 19 para uma série de comemorações pelo bicentenário preparadas pelo governo.

Ana Teresa Torres, autora de “A herança da tribo — Do mito da independência à revolução bolivariana” (sem previsão de ser publicado no Brasil), conta que a primeira notícia que se tem de Chávez evocando Bolívar data de 1982. Militar e conhecedor profundo dos escritos do Libertador, Chávez funda ao lado de colegas militares como ele o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 — o número em homenagem ao bicentenário do nascimento de Simon Bolívar, um ano mais tarde.

— Já na época ele tinha planos de derrubar o regime da Venezuela e governar o país — diz Ana Teresa Torres.

Como lema do movimento de Chávez, uma frase atribuída a Bolívar em 1805 dizia: “Não deixarei meu braço descansar e minha alma repousar enquanto não quebrar as correntes que nos oprimem por ordem das autoridades espanholas”. Chávez trocou para: “correntes que oprimem o meu povo, pela ordem dos poderosos”.

E acrescentou: “Eleição popular, homens e terras livres, horror à oligarquia”.

— Dez anos depois, ele tentou dar um golpe militar contra um presidente eleito (Carlos Andrés Pérez). Saiu derrotado e preso mas, uma vez mais, evocando o Libertador, afirmou que os sacrifícios dele, assim como os de Bolívar, valeriam a pena para um dia resgatar no povo venezuelano “a essência de sua luta” — explica a escritora, ressaltando que Chávez, ao dar este tratamento “messiânico, de Cristo, a Bolívar, se autoglorifica, além de tratar política como guerra”.

Ana Teresa Torres argumenta que, analisando a história da Venezuela, é muito compreensível entender o surgimento de um líder como Hugo Chávez. Trata-se de um povo, segundo ela, com história de culto aos militares, como sendo os únicos com força e capacidade suficientes para dar um jeito no país, quando as coisas vão mal — diferente do que acontece em outros países da região, onde militares são associados a golpes e repressão.

Nas escolas da Venezuela, as crianças aprendem mais sobre as glórias de Bolívar do que sobre o papel dos civis, extremamente importante na luta pela independência.

— Os meninos sonham em seguir carreira militar, é um status aqui. Aí surge uma figura como Chávez, prometendo resgatar esses valores, com um discurso carismático, num momento em que a democracia conduzida por civis aqui há mais de 40 anos estava em crise. O resultado? Os venezuelanos não se incomodaram de eleger um militar de esquerda, que já havia tentando dar um golpe de Estado.

Um socialismo que nunca existiu

A partir daí, o presidente pode iniciar sua Revolução Bolivariana.

Mas se até então, mesmo por Chávez, Simón Bolívar era tratado como um Cristo, o novo presidente descobriu o potencial político do mito. A Constituição de 1999 foi chamada de Bolivariana; no mesmo ano, o país trocou seu nome para República Bolivariana da Venezuela; em 2003, foram criadas as Missões Bolivarianas; de 2007 para cá, o conceito de socialismo bolivariano do século XXI se intensificou, com Chávez espalhando-o para outros países da região.

— Esta é a maior deturpação do mito. Desde quando Bolívar foi socialista? Ele viveu antes de o conceito surgir. Mas (Karl) Marx está distante do povo, Bolívar está perto.

Chávez mais uma vez mistura, em seu discurso, inúmeras referências — observa Ana.

Elías Pino Iturrieta, diretor da Academia Venezuelana de História, acha que olhar para o passado é sempre bom, se “a memória faz o exercício de olhar de maneira distinta”.

— Na liturgia chavista predominam estereótipos em torno de feitos heroicos e de uma glória perdida que só pode ser recuperada se seguirmos seus passos. Assim, a memória se transforma numa cortina que impede a observação da atualidade.

Mutações chavistas

“Sabido é por todos, nesta terra bolivariana, que na Venezuela, desde muito tempo, já se pôs em marcha um processo revolucionário que leva em suas entranhas o mesmo ideal daquele com que começou a luta pela independência, lá atrás, em 1810, nesta mesma Caracas” • CHÁVEZ, EM 2 DE FEVEREIRO DE 1999, NO DIA DE SUA POSSE COMO PRESIDENTE.

“Sinto que a energia da minha alma se eleva, se alarga e se iguala sempre à magnitude dos perigos. Meu médico me disse que minha alma necessita alimentar-se de perigos para conservar meu juízo, de maneira que, ao me criar, Deus permitiu esta tempestuosa revolução, para que eu pudesse viver ocupado em meu destino especial” • CITANDO SIMÓN BOLÍVAR NUMA CARTA ENVIADA EM MARÇO DE 1999 AO VENEZUELANO ILICH RAMÍREZ SÁNCHEZ, O CHACAL, PRESO NA FRANÇA. CHÁVEZ JÁ DEFENDEU SÁNCHEZ PUBLICAMENTE EM VÁRIAS OCASIÕES.

“Bolívar voltou e se transformou em povo e é por isso que a oligarquia reage como as serpentes, porque os oligarcas são os mesmos de ontem, com outros rostos e nomes, e os bolivarianos de hoje são os mesmos de ontem (...) somos os mesmos lutadores pela independência, pela dignidade, pela liberdade e pela igualdade do nosso povo. Não poderão conosco.

(...) Se Bolívar foi traído e mandaram assassiná-lo (...), agora venceremos” • EM 10 DE JANEIRO DE 2002, QUANDO SEU GOVERNO ENFRENTAVA UMA CRISE QUE CULMINARIA COM UMA TENTATIVA DE GOLPE. O PRESIDENTE AFIRMA QUE BOLÍVAR FOI ASSASSINADO, MAS ELE MORREU, AOS 47 ANOS, DE TUBERCULOSE.

“Este NÃO tem muitos anos, este vermelho está guardado na alma dos povos oprimidos, durante séculos, é o NÃO do sangue de Cristo na cruz, o vermelho que representa o NÃO. (...). É o mesmo NÃO de Simón Bolívar quando ele disse NÃO à riqueza material e terminou morrendo em Santa Marta sem uma camisa para colocarem em seu cadáver. É o mesmo NÃO dos que foram atrás de Bolívar (...), o mesmo NÃO do povo da América Latina , que disse NÃO ao imperialismo e à escravidão” • EM 8 DE AGOSTO DE 2004, QUANDO CELEBROU O NÃO A UM REFERENDO REVOCATÓRIO DE SEU MANDATO COMO PRESIDENTE

“O sistema de governo perfeito é aquele que produz a maior soma de felicidade, de segurança social e de estabilidade política. Esse sistema não tem outro nome a não ser sistema socialista” • DISCURSO DE POSSE DE SEU TERCEIRO MANDATO, EM 10/01/2007. A PRIMEIRA FRASE É DE BOLÍVAR, MAS A SEGUNDA É DE SUA PRÓPRIA LAVRA.

>>>>>Para saber mais sobre o tema<<<<<<

LIVROS

“Política externa na era da informação”, de Leonardo Valente (Ed. Revan).

“Hugo Chávez sin uniforme” (Ed. Random House Espanha), de Alberto Barrera.

“Pensar a Venezuela” (Ed. Alfa), de José Balza.

“O Libertador — a vida de Simón Bolívar” (Ed. Rocco), de Moacir Werneck de Castro.

“Simón Bolívar”, por Karl Marx (Ed. Martins Fontes).

“The Hugo Chávez story, from mud hut to perpetual revolution”, Bart Jones (Ed. Random House).

FILMES

“Bolívar soy yo”. DVD. Direção de Jorge Alí Triana.

“Simon Bolivar” (The hispanic and latin american heritage video collection). VHS.

LINK

Chávez, por Gabriel García Márques: http://diplo.dreamhosters.com/2000-08,a1803.html

Fonte: Blog do Fabrício Gomes